“(…) No ônibus, três de nós fizemos teste para a escola de teatro , no mesmo ano. Nenhum conseguiu passar. Agora, nós nos encontramos no palco, nos papéis centrais. Nosso malogro ficou para trás, muita coisa aconteceu desde então. Estamos sentados, lembrando. “Como você reagiu àquilo?”. “Consegue lembrar quem passou naquele ano?”. “O que você fez em seguida? Naquela noite? Nos meses seguintes?”. Rimos. Estamos felizes, juntos, pensando numa coisa que outrora nos magoou tanto.
(…)
Fiquei no corredor durante muito tempo até finalmente saber todos os nomes de cor. Alguns dos estudantes mais velhos passaram e me cumprimentaram com um aceno de cabeça. Depois, saí para a rua. Caminhei durante a noite inteira, traumatizada, com um pressentimento de que minha vida seria assim. Como as festas da escola de dança, em que as bem-sucedidas eram separadas das outras. Onde a perdedora, com um vestido cor-de-rosa, ficava chorando no toalete feminino. Nunca me ocorreu que devia haver vários perdedores aquele dia. Futuros colegas, a quem eu me encontraria, muito tempo depois, numa excursão de ônibus. E, em tom de brincadeira, comentaríamos os jovens que éramos outrora, rindo, distanciados. (…) No curto espaço de tempo de uma noite, tudo o que era habitual e familiar fora arrancado de mim, e eu estava no meio de uma transição. Havia uma lição a ser tirada daquilo, algo difícil de compreender: que carregamos conosco nosso destino e que o destino de cada um não depende desse tipo de fracasso ou sucesso. Tomar consciência disso é um longo processo, que inclui uma abertura ao sofrimento, encarando-o como parte da vida, do desenvolvimento, da mutação. Um ano em Oslo, do qual a lembrança mais nítida que sobrou foi a dos primeiros meses de solidão. Não ser suficientemente capaz, suficientemente talentosa, era a grande dor. Meses que pareciam intermináveis, sem nenhuma meta ou significado. Cuidadosamente registrados num diário azul que ainda tenho, escitro por uma jovem que viveu há muito tempo. Sofrimentos que não me lembro mais, alegrias já distantes de mim. Um apartamento com quatro metros quadrados. Dias sem estrutura. Longas noites cheias de pesadelos. Uma eternidade ebtre a hora de acordar de manhã e o sentimento de abandono, à noite. A biblioteca era o meu ponto de referência de todos os dias. Horas tomando notas precisas sobre o que eu lia. Salas amplas e silenciosas. Um lugar para ficar, onde se integrar. (…) De vez em quando eu arranjava trabalho – pregar selos, endereçar envelopes, tudo o que conseguia arrumar. Nessas ocasiões, jantava todos os dias e escrevia para casa, dizendo que minha carreira teatral progredia maravilhosamente.”
-Liv. Mutações.
Não esperava que o intervalo entre ler isso e chorar, e ler isso e sorrir fosse ser tão curto.